Arcanos Menores

Ancient-Bologna imagem: Antichi Tarocchi Bolognesi de: Giacomo Zoni – Lo Scarabeo

Viajante, quando se fala de Tarô, entenda que se trata de uma criação européia renascentista, seja como expressão lúdica ou oracular. O Tarô que é Tarô, é resumido como um conjunto de 78 Lâminas ou Cartas, dividido em dois grupos: 22 Arcanos Maiores e 56 Arcanos Menores. Arcanos? O que significa? Numa rápida pesquisa no Saint Google, você encontrará algo mais ou menos assim:

“Um segredo, um mistério. Remédio secreto, elixir. Utiliza-se como símbolos secretos: O Grande Arcano da Magia, os Arcanos Maiores do Tarô.” 

O termo arcano, é atribuído a Paracelso (1493-1541). Eliphas Lévi Zagreb (1810-1875), foi o provável "padrinho" do termo para designar as Lâminas do Tarô, que eram até então chamadas de Trunfos do Tarot. O termo Trunfo pode ser traduzido como algo acima ou superior. Desde a segunda parte do séc. XIX em diante, as cartas do Tarô são denominadas Arcanos, e assim permanece.

Nos Arcanos Maiores dizemos serem a formação da vida, reportando ao mundo subjetivo, abstrato e complexo enquanto nos Arcanos Menores, grosso modo igualmente, a manifestação desta formação da vida, como algo objetivo e concreto, um mundo formativo e simples por essência. O Arcano Maior dá direção e caminho e o Arcano Menor o “como se anda” neste caminho e direção.

Os Arcanos Menores são divididos por grupos de quatro símbolos, conhecidos do baralho comum como naipes: Ouros, Espadas, Copas e Paus. E cada naipe no Tarô tem dezesseis cartas, subdivididas em dois grupos comuns com quatro Figuras da Corte: Pajem, Cavaleiro, Rainha e Rei. E dez cartas numeradas: do Ás (um) ao Dez. 

Curiosamente, desde o século XIV até os dias atuais, encontramos alguns baralhos comuns pelo mundo com quantitativos variando de 40 a 48, e os gêneros das figuras da corte um tanto misógina: Pajem, Cavaleiro e Rei, como em alguns baralhos espanhóis, alemães e italianos. Em baralhos franceses, ingleses, russos e holandeses, geralmente temos a seqüencia: Pajem, Rainha e Rei, e dez cartas numeradas, contabilizando 52 cartas. Estas variações são dadas apenas à necessidade lúdica e não estrutural!

Surge na Itália um tipo de baralho entre os séculos XV e XVI, chamado de Minchiate. Com quantitativos variados, tendo a complementação nominal de acordo com a região ou cidade produtora: Minchiate Florentino, Siciliano, Milanês, Veneziano, Toscano.
 
Ainda há algumas criações igualmente históricas que levam o nome do autor espelhado no Minchiate, como o “Mantegna Tarot”, com reprodução confeccionada atualmente pela Lo Scarabeo, “contendo 50 Arcanos e 25 cartas com instruções didáticas para cartomancia.”
 
Da França, nos chega as celebres cartas de Mademoiselle Lenormand no século XVIII, que em seu conjunto menor, o Petit Lenormand, contém 36 cartas e no Brasil é conhecido como Baralho Cigano. Dando margem a designações de Escola Francesa/Européia e Escola Brasileira de leitura. 

Baralho Cigano

E o Coringa - Joker - que existe em todo baralho comum atualmente? Seria mesmo o Louco - Arcano S/Nº que foi se amoitar nele pra fugir da Santa Inquisição? Não! Não! E não! Em meados do séc. XIX, havia a necessidade de haver uma carta mestra extra ou mais, para algumas modalidades de jogatina.

[…] “O Coringa foi instaurado nos baralhos pela primeira vez na cidade de Nova York pela empresa Samuel Hart & Co, exatamente em 1840, mais tarde adotado pela sua concorrente New York Consolidated Card & Co em 1871, e a partir destes eventos se tornou uma peça-chave em vários jogos que foram se desenvolvendo nos salões e cassinos.” […] “Atravessou o o Atlântico por volta de 1910 para a Inglaterra, e desta para todos países vizinhos.” [Estudos Completos do Tarô, Volume I - Tarô Ocultismo & Modernidade – Nei Naiff, pág. 342, 3º edição, Ed. Elevação]

Joker- Coringa
O que se tem historicamente comprovado sobre o baralho comum é que ele existia antes de vir a ser o que entendemos por Tarô, num hiato de aproximadamente setenta anos entre o surgimento de um para o outro. Referências documentadas narram que por volta de 1370 já existia o baralho comum e o que temos por Tarô surge nos meados do século seguinte, lá por 1440.
 
Há escolas com linhas de estudo focadas em simbologia, cabala e mitologia. Como existem outras variantes de aplicação alternativas e emergentes, fora a oracular e do autoconhecimento, como para terapias e meditação. O advento da psicanálise acrescentou termos e informações que auxiliou alguns entendimentos que se expressavam via termos ocultistas anteriormente. Particularmente sou mais as antiquadas expressões esotéricas.

Algumas poucas ordens ou escolas de mistérios utilizam as cartas para fins ritualísticos, magia e poder pessoal e/ou em degraus de estudos de suas postulações internas aos seus neófitos. Meu insipiente contato teórico com o Tarô foi por esta via caprichosa de muitas encruzilhadas. E foi de grande valor, por ter agregado conceitos éticos espirituais e mundanos de importância impar para embasar meu comprometimento. Porém peguei amor pela via profana da adivinhação

Por fim, os Arcanos Menores moldam a leitura completa deixando-a mais precisa, mas nunca se sobreporão aos atributos dos Arcanos Maiores. Em se tratando de Tarô, podemos fazer uma leitura só com os Arcano Maiores sem problemas. Ao passo que se torna inviável a previsão se usarmos apenas os Arcanos Menores num atendimento de Tarô

Os sortilégios que o povo brasileiro teve contato ao buscar esta ajuda espiritual, foram realizadas com cartas de baralho comum, bem antes do Tarô deslanchar e cair no gosto, condições e entendimento das(os) cartomantes dos anos 60/70 do século passado. 

O passado da origem das cartas é mesmo intrigante, creio que permanecerá atravessando os tempos dando margem a poucas pesquisas sérias e diversas especulações fantasiosas. Melhor mesmo a se fazer hoje é nos comprometermos com o futuro do Tarô que buscar tanto os rodeios do seu passado...

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