Faz quem pode, segue quem quer


Cinzelado no isolamento do autodidatismo, em meus estudos iniciais, parecia-me que nunca decolaria como taromante. Perseverança, constância, abnegação ou simplesmente teimosia, acabaram trazendo bons frutos ao longo do tempo, entretanto: a impessoalidade. Louvado Tarô!

Eram tempos sem contato com outros estudantes e professores. Seguia então o sábio conselho de ir jogando e anotando questões e conclusões, para comparar os resultados. Algumas vezes, certas tiragens confrontavam minha vaidade e aceitá-las, por vezes tão claras, era doloroso. E lá estava eu analisando mais uma vez a mesma questão, variando métodos entre manhã, tarde e noite. Errado? Sim! Mas se aprende um dia com os erros, quando se quer.

Foi neste período de transição entre teoria e discurso, práticas e resultados que meu bordão preferido se plasmou: faz quem pode, segue quem quer! Pois não há 'eu não consigo' e sim 'eu não quero fazer'. Passava o tempo, as escama do meu orgulho foram caindo uma a uma. Fui despindo-me da autoindulgência com minhas pretensões. As coisas pareciam cruéis a princípio, porém transparentes e verdadeiras, entendo hoje.

Pendurado no profissional ou Torre no sentimental era relativamente fácil para passar para o consulente, mas quando eram para mim? Era delicado e angustiante para o vaidoso livre-arbítrio de espiritualista, a tal ponto de refazer tiragens três ou quatro vezes, querendo enganar-me sendo tendencioso nas interpretações. Um Pendurado não tem o poder de mudar, se mantém na sua postura de vítima, está acomodado em suas ilusões, somente os conselhos de mudar, mudar paradigmas e mudar ações podem fazer diferença mais a frente. E um Pendurado para mudar é osso!

Apanhava da vida e do Tarô, e entre sovas aqui e acolá, lentamente fui descobrindo outro lado do autoconhecer, ao estudar e observar o Tarô que ia praticando para mim, pois aquelas jogadas eram espelho a refletir minha infantilidade ao enfrentar desafios. Despertava para o quanto teria que evoluir como pessoa para crescer como tarólogo e taromante. Amadurecer no alto dos meus 40 e poucos anos e sem medo da dor de mudar.

Entendi o que é o caminho da dor, atentei que me colocava nele devido aos meus excessos. A culpa não residia no outro, e nem o outro era responsável pela minha felicidade. Aceitei o desafio de ser senhor dos meus atos e pleno responsável pelos resultados. Assim, não mais repisei as mesmas pegadas incômodas. Larguei as correntes de autopiedade que arrastava. Desejei novos resultados, precisei de novas atitudes. Fazer diferente e com menos desvarios.

As dificuldades de ser impessoal, a duras penas por meus desacertos de estudante solitário, melhoraram minha postura na vida. Deixei de ser tendencioso para comigo e consulentes. Abandonei o “juiz_carrasco_MODE/ON”, tornando-me um intérprete mais neutro dos Arcanos sobre a toalha da mesa. Descomplicou escutar o alerta de quando adentrava no minado campo de ser mais torcida que taromante nas consultas. Ruía a última Torre que me recordo daquele velho “eu”. Surgia uma 3ª pessoa entre as lâminas e mim: o impessoal, que levei para os meus atendimentos. E como deu certo!

Desenvolvi seriedade com bom humor, ouvindo com serenidade confidências sem fazer patrulhamento moral, seja do que fosse. Faz quem pode. Ousado mas não impetuoso, comedido quando não aceitavam as respostas da mesma forma que faziam as perguntas, pois, meu caro Viajante, segue quem quer...

Comentários

  1. Bom, no meu caso foi pior: o isolamento do autodidatismo me fez desistir do tarô.

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  2. Viajante Anônimo,

    será que foi para sempre? Mesmo assim, obrigado pelo prestígio e comentário.

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  3. Interessante relato,comigo aconteceu que eu sempre me sentia abaixo do ideal quando jogava para os amigos, parentes, e isso me empurrava para quase uma desistência. Jogar pra mim então, era considerado impossível. Mas realmente a vida ensina, nada como ser determinado!Abs!

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  4. @SenhordaVida,

    sempre fui de ousar quando procurado, mesmo com muitas limitações, o meu aprendizado foi possível pelo isolamento dos primeiros anos. Melhorou muito quando aprendi a ser imparcial jogando para mim mesmo...

    ...e como "me autoatendi"! XDD Forte abraço My Lord!

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  5. Belo artigo João!

    Grato por compartilhar essa sua experiência.

    Penso que tem um pouco dela na história de cada um de nós que estuda e intepreta o Tarô. E é tão bom lermos algo assim que fala um pouquinho de nós ...

    Parabéns,

    Ricardo Pereira

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  6. Ricardo,

    obrigado! Como comentei no Substractum, a inspiração veio do seu artigo. Já pensou na possibilidade de publicar em livro seus artigos? Ou um livro referência sobre Tarô? Ficarei trollando! :o)

    Bom domingo!

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  7. O autodidatismo requer estudo, prática, intuição e persistência. Aquele que verdadeiramente busca trilhar o caminho do louco no tarot não deve desistir, apesar das dificuldades.

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  8. mano,

    amor e persistência, trocar ideias com outros estudantes, e sempre que possível, participar de palestras, encontros e cursos avançados.
    O autodidata não deve ser uma ilha. O Tarô é um estudo para uma vida inteira!

    Obrigado pelo prestígio e comentário.

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  9. Tarô é paixão. Paixão não se mantém, se vivencia...
    Excelente artigo, Arieron!

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  10. Emanuel, certamente! Uma nova paixão todos os dias...

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