Maionese herética



Viajante, uma das coisas que ocupam a mente de alguns tarólogos, e às vezes a minha, é como se chegou à estrutura das 78 cartas. Esse assunto tem gerado crenças e correntes de pensamentos que, se não deturpam tanto os conhecimentos do presente, caíram nas graças do imaginário popular do passado. Vindo de quando Gebelin escreveu “Mundo Primitivo”, para vender seu gênesis usando o velho baralho como ponte para desvendar os hieróglifos egípcios pré-Champollion.

É voltando à Europa do século XV, mais ou menos, que este @herege que vos escreve formula uma pequena tese de pé quebrado, que resumirei ao máximo para vossa tolerante paciência dominical. Apertem os cintos e observem o aviso de não fumar, hoje é dia de maionese herética! Boa viagem...

Vender é a palavra chave. Pois quem, sem meios econômicos, sobrevive? E ainda, de quebra, ganha notoriedade e prestígio? Salvo aqueles que possuam um mecenas custeando seus estudos e pesquisas e o brioche de cada dia. De alguma forma todos os do meio querem um público (cliente, freguês ou consulente), mesmo que para isso acabem viajando em maioneses esotéricas, aos olhos atuais.

Aliás, por justiça: nada escrito havia de mais “detalhado” sobre o tarô até o momento em que o “Mundo Primitivo” apareceu, tornando-se o grande start para que o tarô fosse o que é em nossos dias.

Como não havia internet, videogame ou TV por assinatura, jogar baralho era uma febre no quesito “passatempo” e “ganhar dinheiro” - vendendo e principalmente apostando (princípio do ócio produtivo?). Utilizando o processo de xilogravura, aprimorado nos séculos quatorze e quinze, os europeus aplicaram intensamente a xilografia na produção de imagens sacras, santinhos e cartas de baralho.
Biblioteca Nacional da França
Assim, fabricar e vender este objeto ou sonho de consumo ficou muito mais fácil e barato do que antes, quando se precisava de um habilidoso, demorado e custoso artesão para fazer um conjunto. Cada região ou pais foi criando seus jeitos e meios de fazer baralhos, com quantidades diversas, nomes diversos, tanto para uso lúdico, e quem sabe se paralelamente ou depois, para consultas oraculares. De certa forma, dois públicos consumidores distintos a se utilizar das cartas.

Sabe-se que governos diversos criaram impostos e condições (ou imposições) para fabricar e vender baralhos. Artesãos e artistas se reuniram em cooperativas para tais fins, porém com tantas regras, normas e formas para ter-se os baralhos que, em algum momento, se fez mister padronizar um conjunto que pudesse atender a todos ou quase todos consumidores do então velho mundo. Um baralho ideal para se produzir, vender e usar, sem restrições, algo como um “baralho final”.

Como em alguns países havia baralhos com “figuras da corte”, por exemplo, onde só havia imagens masculinas (ah essa misoginia!), em outros tantos se intercalava uma feminina. O padrão gerado em Marselha (?), se fez como notamos hoje: Pajem, Cavaleiro, Rainha e Rei, e mesmo em alguns jogos de azar que não se usava todos os numerados, o padrão do Ás (um) ao Dez dos numerados eram vendidos no pacote, pois se não gostassem da moça no meio dos moços, por uma questão de pudor cristão ou preferência, poderiam suprimir a rapariga, como retirar alguns numerados para fazer um truco à época. Ficou ao gosto do freguês.

Para diferenciar, entre tantos nomes, deu-se o nome de Tarot para o padrão geral que bem conhecemos. Era um brinquedo “plástico e versátil”, ou como se diz hoje, multimodal, em essência. Grande sacada não? Se assim o fosse…
Gravura inglesa de Israel Van Heckenem 1816
O tarô como uso divinatório preservou o padrão Marselha, oferecido com 78 cartas e sem preconceitos (diga-se de passagem). Alvíssaras às cartomantes que usaram a estrutura nas suas leituras de sorte desde então e aos artistas e comerciantes que seguiram o tal padrão! Obrigado e até a próxima viagem!

Comentários

  1. Compartilhei seu texto. Amei a foto e obrigada por compartilhar parte do seu conhecimento histórico :)) CéudoDia

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  2. CéudoDia,
    lisonjeado e agradecido por compartilhar e comentar!

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  3. Arierom, que sacada, Muito bom!

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